quinta-feira, novembro 09, 2006


Uma outra história de guerra


Brenno Sarques

Existem pessoas que passam a vida em completo anonimato, outras deixam um legado, uma lição, e se tornam imortais. Tive a oportunidade de ficar cara a cara com um desses personagens que fazem a diferença no mundo. Enquanto milhões de pessoas se matavam durante a Segunda Guerra Mundial, Arthur Howe tomou uma atitude diferente: foi para a guerra não para matar, mas para salvar vidas. Médico? Enfermeiro? Não, Howe era motorista de ambulância.

Durante a primavera de 1940, aos 19 anos, o então jovem universitário, nascido em Connecticut, nos Estados Unidos, alistou-se para ser voluntário do American Field Service (AFS), grupo de motoristas norte-americanos que, durante a Primeira Guerra Mundial foram à Europa para ajudar os franceses. Em 1939, o AFS recebeu um novo chamado de Paris para retornar aos campos de batalha.

Um grupo de soldados franceses havia escapado da invasão alemã e se refugiou na Inglaterra. Lá, eles formaram o Exército Francês Livre (Free French Army), sob o comando do general Charles de Gaulle. Eles passaram a integrar o 8° Exército Britânico e seguiram para a África. Em 1941, cinqüenta voluntários com suas ambulâncias partiram rumo ao Egito, para dar suporte aos britânicos.

África
O oceano Atlântico estava invadido por navios alemães. Para evitar o encontro no mar, os voluntários passaram 65 dias descendo a costa da América do Sul, passando pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul e depois subindo a costa leste africana até atingir o Egito. De lá, Arthur e seus companheiros seguiram para a Síria, Líbano e Palestina. A tarefa do 8° Exército Britânico era impedir que as tropas do Eixo chegassem às reservas de petróleo no Oriente Médio.

No início de 1942, o palco de batalha era a cidade de Zahle, no Líbano. Foram três meses no front juntamente com o exército da Nova Zelândia. Em seguida, os AFSers (como eram chamados os motoristas) foram para Tobruk, na Líbia, onde uma divisão do exército australiano estava cercado pelos alemães. A única forma de entrar era pelo mar. A divisão australiana estava encurralada pelo exército de Hitler e precisava de suporte dos ingleses. Às 5:20h da manhã de 20 de junho de 1942, o Afrika Korps alemão atacou a cidade. Em dois dias, Tobruk estava nas mãos de Berlim. Neste ataque, doze motoristas voluntários foram mortos, Arthur estava lá, mas conseguiu escapar.

Passado o pesadelo de Tobruk, o objetivo era recuperar a cidade de El Alamein, última linha de defesa dos campos de petróleo. “Durante a viagem à El Alamein, os médicos tinham que decidir, entre os feridos, quem ainda deveria receber socorro e quem estava fadado a morrer. Os que não tinham mais salvação recebiam uma injeção de morfina para aliviar a dor e morrer em paz”, conta. A batalha de El Alamein foi o prelúdio do fracasso nazista na África. Os alemães e italianos preparavam-se para atacar Alexandria, mas foram surpreendidos pelas tropas inglesas. Contrariando as ordens de Hitler, de resistir até o último soldado, o marechal Erwin Rommel partiu em fuga com seus 250 mil homens rumo à Tunísia. Lá, foram capturados pelos norte-americanos.

Era hora de recuperar a cidade tomada pelos alemães. Foi quando o General Bernard Montgomery passou a comandar o 8° Exército. Em outubro de 1942, deu-se início a 12 dias de batalhas face-to-face, onde Arthur e seu grupo iam ao front para socorrer os feridos e levá-los para junto dos médicos. “Foram doze dias sem dormir, com pouca comida e muitas bombas sobre nossas cabeças”, lembra Howe. Ao final da batalha, Tobruk estava novamente sob o comando dos aliados.

No natal de 1942, as tropas do 8° Exército e os AFSers liderados por Howe seguiram para Trípoli, capital da Líbia. De lá partiriam para Tunis, capital da Tunísia, onde encontrariam o exército norte-americano em mais uma batalha.

As condições climáticas no deserto eram particularmente horríveis: altas temperaturas durante o dia, frio à noite e intensas tempestades de areia. Nesse período, Arthur comandava um grupo de 120 ambulâncias: “tínhamos que trocar o óleo das ambulâncias a cada dois dias. Quando chegamos em Trípoli, tivemos que trocar todos os motores de nossos veículos”, recorda.

A cidade de Tunis estava dominada por alemães e italianos. As forças norte-americanas avançavam pelo oeste da África, enquanto os ingleses pressionavam pelo leste do continente. A capital da Tunísia era um dos últimos focos de resistência de Hitler e Mussolini. Nesta altura da guerra, as tropas italianas se encontravam enfraquecidas, faltava combustível para os tanques e caminhões, mas as forças alemãs ainda estavam em boas condições de batalha.

Finalmente conquistada, os aliados permaneceram em Tunis, preparando-se para o próximo passo: invadir a Itália. A surpresa ao desembarcar em solo romano, foi deparar-se com o esgotamento das forças militares fascistas. A resistência era feita por alemães, ou mesmo por civis italianos.

O Fim
Para Howe, o pior da guerra ainda estava por vir. O maior sofrimento não foi o ferimento que sofrera na África, nem os traumas de tantas mortes e destruição enfrentados durante todo o período em que socorreu feridos. Ao chegar perto de Monte Castelo (lá, onde estavam os ‘pracinhas’ brasileiros), as tropas aliadas ocuparam um campo de pouso, cercado por prédios de oito andares, todos muito danificados. “Não havia como ocupar os andares superiores, mas podíamos nos abrigar nos inferiores”, afirma Arthur.

Era a época do inverno italiano. Chovia muito e o frio era intenso. Foi quando um grupo de civis italianos aproximou-se das tropas: “havia muitos idosos, mulheres e crianças, eles estavam andando há cerca de seis dias, estavam famintos e ao relento”, recorda. Mas a guerra não conhece a compaixão, e Howe tinha ordens para não deixar ninguém entrar nos prédios, a não ser suas tropas. “Tive que impedir aquelas pessoas de receberem abrigo, e elas tiveram que partir debaixo de uma forte chuva. Foi o pior dia que passei em toda a guerra”, emociona-se ao lembrar.

A última tarefa realizada por Arthur foi limpar um campo de prisioneiros construído pelos italianos. Havia uma montanha com mais de quatro metros de altura somente com sapatos dos prisioneiros assassinados. Depois de tanto tempo vivenciando os horrores da guerra, isso não causava mais nenhum impacto.

Terminada a guerra, o AFS tornou-se a maior instituição de intercâmbio entre estudantes no mundo. A missão ainda é garantir a paz, agora por meio da educação e da tolerância entre culturas. Milhares de estudantes de 55 nações têm anualmente a possibilidade de viver em uma outra realidade, em um outro país. Talvez esta seja a maior vitória de Howe.

Franceses lutaram entre si

Pouca gente sabe, mas durante a Segunda Grande Guerra, criou-se na cidade de Vichi, na França, uma tropa que nunca foi reconhecida pelos aliados. Os Vichi então passaram a colaborar com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), e foram comandados por Pierre Laval e Jean François Darlan. Eles governaram a França enquanto o país estava sob ocupação nazista. Durante a guerra na África, o 8° Exército Britânico, do qual fazia parte o Exército Francês Livre, deparou-se com as tropas Vichi. Não deu outra: soldados franceses lutaram contra seus próprios conterrâneos.

5 Comments:

Blogger Cássio said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

9:48 AM

 
Blogger Cássio said...

Perfeito para uma simples e bela apresentacao do AFS! ;)

Se estiver com paciencia traduzirei para o ingles ate segunda feira para incluir no fim da minha apresentacao!

Se tiver o texto em ingles, me avise.
Cassio

9:52 AM

 
Anonymous Anônimo said...

BRENNo,
parabéns mesmo pela matéria!!! Pode ir trabalhar no NY Times, Folha, Estadão, Le Monde.... Vc tem talento!!!

Parabéns mais uma vez!!!!

GRande Abraço

Victor

9:42 PM

 
Blogger AFS - Comite Campina said...

Muitoo bom adorei a matéria, o cara realmente é a história viva!!
abracao Breno e parabens!
Andre Chaves

1:01 PM

 
Blogger O Levante said...

Valeu galera, é um orgulho fazer parte deste grupo..

abraço a todos

brenno

11:00 AM

 

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